quarta-feira, 27 de maio de 2009

Carta aos vereadores contra o Centro de Zoonoses de Joinville

O pessoal anda super preocupado com o aumento da tarifa no transporte. Legal. Mas tem outro assunto, não menos urgente, que deve ser discutido.
No dia 20 de maio aconteceu uma reunião na Câmara dos Vereadores que culminou na aprovação do Centro de Zoonoses de Joinville. As Ongs de proteção animal da cidade não aceitam o CCZ na forma como ele será construído. No projeto, constam três canis, um gatil, uma sala de eutanásia, uma sala de epidemiologia e a área administrativa. Não estão previstos consultórios, clínica para o atendimento dos animais ou sala de isolamento para os feridos e doentes. Assim, as Ongs entendem que os animais recolhidos que não estiverem saudáveis serão jogados nos canis e gatis, sem tratamento e à espera da morte.
O Abrigo Animal fez uma carta para protestar contra esse projeto de CCZ que, segundo eles, é falho. Leia a carta:


Senhor vereador (a),

Nós, protetores de animais, protetores da ética, protetores da vida, lamentamos a aprovação pelos senhores da proposta apresentada na reunião do dia 20 de Maio na câmara de vereadores.
A reunião foi marcada para discutir e debater a aprovação do convênio para a criação do CCZ- Joinville, e principalmente, para esclarecer os vereadores e a população as funções do CCZ em uma cidade. Neste encontro, foram chamados para participar, todos os vereadores, representantes da vigilância sanitária e da Secretaria de Saúde para esclarecer as dúvidas da população, representante do IPUJ que compareceu com o projeto arquitetônico do CCZ, o representante da WSPA (Sociedade mundial de proteção aos animais) e a representante do Ministério Público.

A sessão iniciou com o esclarecimento do Sr Halen da WSPA, na sua apresentação relatou aos presentes o que é um CCZ e as funções do mesmo.
Constatamos que existe no Brasil uma visão errônea das funções de um CCZ, principalmente em Joinville, onde imaginam que um CCZ irá somente cuidar (cuidar = dar fim) de cães e gatos. NÂO, um CCZ não é de forma alguma o que estão querendo fazer em Joinville.
O projeto apresentado se resume a 3 canis ( primeiro dia, segundo dia e terceiro dia), um gatil, uma sala de eutanásia, uma sala de epidemiologia inserida entre os canis, e só. Possui também a área administrativa. Não existe consultório, não existe clínica para os animais serem atendidos, não existem isolamentos para os animais feridos e em tratamento, o que se conclui? Serão recolhidos, jogados nos canis e gatis, sem tratamento e à espera da morte.

As representantes da Secretaria da Saúde explicaram como será o funcionamento do centro e contradisseram tudo o que foi divulgado na mídia até agora.

O objetivo, claro, era satisfazer aos vereadores presentes, aos protetores e a comunidade, para que este convênio fosse aprovado.

Ninguém lê jornais? Todos já esqueceram do que foi publicado? Senhores, o projeto fala por si mesmo.

As representantes da saúde esclareceram que o CCZ fará muito mais, cuidará do registro dos animais, fará castração, fará atendimento veterinário às pessoas carentes, terá uma função muito maior do que dar fim a cães e gatos, porém, diante dos questionamentos, as respostas foram desencontradas, muitas contradições, e sem definições. Sem citar o projeto errado. Alguns exemplos abaixo:

O que será feito dos animais recolhidos que estão atropelados ou doentes?
RESPOSTA: Será feito avaliação veterinária e se não tiverem tratamento irão para eutanásia, mas se tiverem cura serão tratados.

Repito, no projeto não há clínica, nem consultório, nem isolamento para os animais em tratamento.

O que será feito dos animais que não forem adotados? (Sabemos por experiência que as adoções são em número muito menor que as entradas).
RESPOSTA: Será feito leilão dos animais, ou serão doados para entidades pedagógicas. O mundo todo procura alternativas para parar de usar animais em pesquisas, porém, O CCZ sugere que isto seja feito.

Em uma situação de total desinformação, um vereador no seu discurso disse que “ tudo bem a cidade gastar 800 mil reais para cuidar de animais desde que também pensem nas crianças”. Cuidar senhor? Cuidar? Definitivamente, o Senhor não assistiu as apresentações.

Senhores vereadores, vocês gostariam de serem recolhidos pelo pescoço, com uma perna quebrada, com fraturas e pancadas e serem jogados em uma cela sem tratamento e sentindo dor?

Senhores vereadores, os senhores gostariam de serem trancafiados sem comida e precisarem comer seus semelhantes mais fracos e menores, pois esta é a única saída depois de sentir tanta fome e desespero? Pois isto senhores, são duas situações comuns na maioria dos CCZS do Brasil.
Por este motivo, meus caros, O CCZ não é um SPA para animais. Por este motivo, os protetores pediram, ”Por favor, senhores vereadores: não aprovem nada até que este projeto esteja correto , até que todos os pontos estejam claros, para que não tenhamos que ver em Joinville estas cenas, para que tudo seja iniciado de forma correta e não como está sendo apresentado.

Porque senhores vereadores, não tentamos implantar em Joinville projetos de castração que são a única forma de reduzir a população de animais domésticos abandonados?

Porque senhores vereadores, não tentamos implantar a fiscalização e regimentar a criação e venda de animais? Estes são um dos maiores causadores do problema.

Se isto for feito, meus caros, quando o CCZ for aprovado teremos muito menos animais abandonados e tudo será mais fácil, ou vocês imaginam, que somente um local construído irá obrigar os responsáveis pela saúde pública a fazer controle populacional humanitário de cães e gatos? Senhores, eles já tiveram tempo suficiente para demonstrar que não tem interesse em fazer nada disso, senão este controle populacional poderia estar acontecendo há muito tempo, independente do CCZ estar pronto.

Há muitos anos, os protetores e ONGS desta cidade vêm tentando implementar junto ao poder público de Joinville, um projeto permanente e eficaz de castração dos animais domésticos. A proposta, é de que este projeto seja colocado em prática em conjunto com projetos educacionais, visando a conscientização e educação da população com relação à posse responsável. A experiência mundial comprova que esta é a única forma de minimizar o problema da superpopulação de animais domésticos evitando desta forma o abandono e sofrimento destes animais.

Joinville tem mais de 500.000 habitantes e necessita de projetos, investimentos, boa vontade dos governantes e da conscientização da população.

Senhores, não é o CCZ que irá fazer isto, apesar dos representantes quando convém falarem que sim, e também falarem que não.

Nós protetores, de forma alguma esperamos que o poder público mantenha Abrigos com todos os animais abandonados da cidade de Joinville. Nós esperamos trabalho e projetos que sejam implantados para resolver o problema.

Sabemos que tomando as atitudes corretas não será necessário existirem Abrigos para animais, pois o problema será combatido na causa.

Joinville ainda tem solução, basta vontade política e competência.

Queremos acreditar que esta Câmara lutará pelo que é correto, que os animais de Joinville poderão contar com o apoio dos vereadores na luta pelo respeito aos seus direitos.

Atenciosamente.

Eu mandarei a minha carta também.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Juro

Juro, para mim mesma e para vocês, que levarei este blogue adiante. Esta semana terá uma postagem nova. Juro.
Enquanto a promessa não é cumprida, fica o trecho de uma música que significou muito para mim, desde a primeira vez que a ouvi.

Quando eu vivo este encontro
Eu digo adeus
Refaço os meus planos, pra rimar com os seus
Abandono o que é pronto
E digo adeus
Eu trago os meus sonhos, pra somar aos seus

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segunda-feira, 11 de maio de 2009

Doidos pelo Jec

Quando questionado sobre as loucuras cometidas pelo time do coração, o Joinville Esporte Clube (Jec), o jornalista Hélio de Sousa, 27, diz: “Já fiz algumas, mas a maioria não posso revelar”. O que esse joinvilense tem em comum com uma senhora de 78 anos e um estudante de 21 que não come carne e não usa drogas por posição ideológica? A paixão pelo futebol. Nenhum deles sabe explicar esse sentimento, que os leva a viajar para assistir os jogos, vibrar com uma vitória como se fosse o primeiro lugar em um campeonato e até a chorar em uma derrota.

A vovó do Jec
“Quando ganhava, eu chorava. Quando perdia, eu chorava”. Essa pessoa sensível é Dilma Freitas Roldão, 78. Ela mostra, orgulhosa, as quatro camisas do Estrela do Sul (time de várzea, que acabou em 2008), uma do Jec e uma dos “Amigos do Nardela” (antigo jogador do Jec), sem contar os recortes de jornal e as faixas de campeão que possui. A camisa do Jec foi dada por um genro, e a dos “Amigos do Nardela” foi presenteada pelo próprio jogador em uma visita feita à casa da senhora. Nessa visita, o jogador aproveitou para dar autógrafos. Em 1997, Nardela candidatou-se a vereador pelo PMDB. Dona Dilma votou no antigo ídolo do Jec, que ganhou a eleição naquele ano.

Dilma, que não perdia um jogo e fazia os filhos a levarem ao estádio de moto, ainda não conhece a Arena. Em 2000 o marido dela morreu, o que provocou uma profunda depressão que a deixou sem andar por quase oito anos. No fim do ano passado, a avó de sete netos juntou forças para sair da cama, em parte graças ao futebol. “Ela disse que ia levantar para o Jec levantar junto”, explica a neta, Tuane Roldão, 18. Mas o time joinvilense não reagiu e ficará sem jogar por sete meses, pois não conseguiu uma vaga na série D do brasileirão. Bom para Dilma, que ainda está se recuperando e espera ir novamente a um jogo do Jec assim que estiver curada.

Coração Tricolor

Hélio tem nada menos que 16 camisas do Jec (uma delas foi usada por Nardela), duas faixas de campeão, três calções, uma touca, duas bandeiras, caneco, chaveiro, meião, caixa com recortes de jornal, carteirinha de sócio do tempo do Ernestão e até mesmo um tênis – ideia dele e concretizada por um sapateiro. Além disso, já comprou uma camisa do Jec para um menino carente que não tinha condições de ter uma, foi líder de torcida organizada e já viajou até Lages para ver o time vencer o Figueirense por 3 a 0. O jornalista, que hoje em dia acompanha os jogos como repórter do jornal Notícias do Dia, compara seu jeito de torcer com o dos argentinos: mantém o espírito, mesmo que o time esteja sendo rebaixado, perdendo de goleada ou sem divisão – e ainda sai com a camisa na rua.

A paixão de Hélio é de família: o pai dele, Élio João de Sousa, 57, já trabalhou no Jec, mantém duas cadeiras nas sociais da Arena e já viajou em pé até Itajaí de ônibus para ver uma final contra o Avaí (na época, segundo Hélio, mais de 100 ônibus saíram de Joinville com o mesmo objetivo).

Apesar de tudo, Hélio nega já ter chorado por causa de futebol. “Porém, fiquei puto da cara algumas vezes”, diz. Para ele, o time não precisa de “torcedores de sofá”, como chama. “Esses são os primeiros a falar mal e abandonar o clube após algumas derrotas, perdas de campeonato, etc”, critica.

Homem chora sim...

Bruno Isidoro, 21, já chorou pelo Jec. O estudante de jornalismo fala que sente amor, ódio, felicidade, tristeza, tudo por seu time do coração. “É uma relação mesmo”, compara. Bruno chorou quando o clube não se classificou para a série D, e até fez um texto sobre isso em um blogue de sua autoria, relatando o dia dos jogos que decidiram o calendário do Jec para o ano de 2009.

O estudante se considera torcedor do Jec há pouco tempo, desde 2007, quando começou a “sentir emoção” nos jogos. Para ele, é natural torcer para o clube porque é o time de Joinville, cidade onde cresceu e nasceu.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Uma cã do barulho

Quando a Nikki chegou lá em casa, eu estava na fossa. Era novembro de 2006, estava prestes a me formar no ensino médio. Alguém havia partido meu coração em mil pedacinhos – pela primeira vez -, e minha mãe leu em algum lugar que pessoas que convivem com cachorros são mais felizes. Fazia muito tempo que insistia com meus pais para termos um integrante canino na família, mas morávamos em apartamento e eles achavam que não daria certo. Sem esquecer que minhas experiências anteriores com bichos de estimação não haviam sido muito boas: dentre gatos, cachorros, peixes e periquitos, alguns haviam sido roubados, outros ficaram doentes e morreram e os mais ousados resolveram simplesmente ir embora.

Decidimos adotar um cão. Não porque na época nos preocupássemos com os animais abandonados por aí. Eu ainda não era vegetariana e não tinha a ligação que hoje tenho com os bichos. Fiquei ansiosa, imaginando vários nomes pra colocar no cachorro. Mas minha avó acabou decidindo tudo: encontrou, numa agropecuária próxima a casa dela, um filhote de vira-lata branco que era a cara do cachorro do Máskara, que tinha rabo (que idiotice cortar o rabo dos cães) e patas traseiras mutantes (explico: Nikki tem um dedo a mais em cada pata traseira. Um dos dedos tem duas unhas. Eu acho tudo muito lindo). Dona Lucy, minha avó, escolheu o nome do bicho: Nikki, igual à poodle da Ana Hickmann. Era fêmea, magrela e com cara de coitada. Fui com meu pai buscar a cã de guarda na casa da minha avó. Foi amor à primeira vista.


Chegando em casa a primeira coisa que a Nikki fez foi... mijar na minha cama. Logicamente não dei bola, achei tudo muito lindo. Aquela cachorrinha era tão assustada e medrosa que resolvi botar a cama dela no meu banheiro, pelo menos durante a primeira noite, para ela não se sentir tão sozinha. Ela choramingou e não dormiu a noite toda. Eu também não.

E foi assim. Nikki fazendo cocô, mijando pela casa inteira, comendo a própria cama, o sofá e os chinelos alheios. Conquistou todos em minha casa. Não quero nem pensar em quando ela morrer. É tratada como um integrante da família: às vezes, quando saímos à noite e ela tem que ficar sozinha, deixamos até uma luz acesa para que ela não fique no escuro.

Atualmente, Nikki tem dois anos e oito meses de idade. Continua com as patas mutantes e é castrada. A coisa que ela mais adora no mundo é passear. Não come mais as coisas e vai ao banheiro direito. Late como uma doida quando chega gente nova em casa, quando o interfone toca, quando não gosta de uma pessoa por algum motivo obscuro e quando alguém sai de dentro do carro e a deixa. é mimadíssima. Gosta de dormir enrodilhada na minha barriga e embaixo das cobertas – mas reclama, rosna e vai para a própria cama se me mexo muito durante a noite. Gosta de palitinhos de couro. Odeia tomar banho e cortar as unhas. Morre de medo do meu pai. Já me deu uma mordida na boca. Anda precisando de uma dieta. Não gosta de tirar fotos.

E é verdade. Quem tem cachorro é mais feliz.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

O que a gente faz enquanto espera

Os funcionários do Besc estão sofrendo com a incorporação da instituição ao Banco do Brasil. O sistema mudou completamente, dizem eles. Os clientes sofrem mais ainda, obviamente.

Fui hoje na agência central do Besc para abrir uma conta (essa Udesc é burocrática, viu). Entrei às 12h30 e saí só... 16h. Nesse meio tempo, joguei o jogo da cobrinha no celular e bati o recorde, perdi a aula de inglês e até tirei um cochilo. Neste momento, 16h23, ainda não almocei. Mas tudo bem, o que importa é que agora sou uma correntista universitária. Carência de seis meses... pois agora!

A moralidade de quem já fez algo pior

Por morar no centro da cidade, eu raramente ando de ônibus. Quando ando, me divirto bastante – menos quando o carrão está cheio e tem um monte de gente esbarrando em mim, além daquele cheiro de sovaco. Tento me distrair ouvindo as conversas dos outros. Gosto de imaginar a vida alheia.

Em junho, acontecerá (se não houver um levante homofóbico antes) em Joinville a Semana da Diversidade. Esse evento está suscitando o maior bafafá entre os joinvilenses. A maioria é contra, resultado da ignorância e do preconceito. Alegam que não sabem o que dirão a seus filhos se eles virem gays se beijando, que é injusto usar dinheiro público para um evento desse tipo, entre outras coisas.

Ontem, indo para a Udesc pegar uma papelada (de mau humor, por sinal) e ouvindo conversa alheia no ônibus, fiquei boquiaberta. Estava sentada lá atrás – o pior lugar, porque é o que mais balança – e no meio do saracoteio, uma senhora falava bem alto e reclamava. Ela começou bem. Falava mal das empresas de ônibus que detêm a concessão em Joinville, dos prefeitos (mas falou bem do Wittig Freitag, como todos os que eram adultos naquela época), etc. Mas de repente, mudou o assunto para a parada gay que acontecerá em Joinville:

- Eu acho um absurdo isso. Esse pessoal que é gay devia pensar na mãe, no desgosto que dá pra mãe sendo gay. Essas mães também, não dão um puxão de orelha nesses filhos, tem umas que até acham bonito o filho ser gay. Esse pessoal tinha que rezar pra parar com isso, que coisa feia.

Então eu fiz uma bela intervenção:

- Minha senhora, com todo respeito, você acha que gay escolhe ser gay? Um cara vai lá e pensa: "Ai, estou cansado dessa vidinha monótona de hetero, vou virar gay, pronto. Ui".

Logicamente, essa intervenção ficou apenas na minha cabeça, fruto da minha grandiosa imaginação. Faltou coragem pra dizer isso àquela mulher, e ela continuou lá, imponente e gigantesca em seu trono de plástico do ônibus, reinando sobre todo o corredor, os demais reles passageiros e quiçá, o motorista. Mas pelo menos eu falei o que pensei em dizer e não pude para uma moça que estava ao meu lado, sorrindo simpaticamente para mim ao ver minhas caretas durante a explanação daquela senhora – que tinha aquele bizarro sotaque de descendentes alemães, o L falado com a língua perto dos dentes e o R como se fosse "ere" ao invés de "erre".

A realidade caiu bem pesada sobre mim. Quanta gente preconceituosa e ignorante existe nesse mundo. E não falo só dos gays, mas dos negros e até mesmo daquelas pessoas perseguidas por causa da religião que seguem. Parabéns a todos aqueles que são o que são, admitem, sofrem e são reprimidos, mas levantam e seguem em frente. É o jeito.